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Traduzir é cultura

Atualizado: 16 de fev. de 2021



Por Marcos Toledo


A linguagem é um traço cultural de um determinado povo. O seu vocabulário costuma ser uma junção de vários elementos, como a vivência, cultura, tempo e saberes dessas pessoas. Desse modo, estes elementos e fenômenos que estão presentes na nossa cultura terão identificação no nosso imaginário coletivo – em outras palavras, quando falo “cachorro”, aparecerá uma imagem de um cachorro na sua mente. Claro que, também, as interações entre diferentes culturas, inclusive através das próprias traduções, fizeram com que muito fosse adaptado e readaptado, pensado e repensado, criado e recriado, misturado e absorvido entre as culturas.


Precisamos refletir sobre a questão de que as línguas não foram feitas sentando-se numa mesa e criando uma equivalência em todas os demais idiomas. Ou seja, nem toda palavra terá uma equivalência, ou será traduzida facilmente, pois aquela palavra não é da vivência daquela cultura, portanto, não fará sentido.


Assim como, entregar um texto na língua original para uma língua de destino, sem qualquer tradução, também não fará nenhum sentido. Desse modo, debatemos aqui a importância da tradução, pois podemos considerar até mesmo como elitismo o conservadorismo com as traduções de textos. Isto é, muitas pessoas são categóricas ao discorrer contra as traduções. Você provavelmente já escutou que “traduzir é trair”, ou já ouviu que é melhor usar a palavra em inglês para não perder o sentido da coisa.


O problema nisso – e aí é que tá o elitismo da coisa – é quase como exigir que uma pessoa tenha a condição de entender o texto na língua original, para não ocorrer uma “traição de sentido”. Sendo assim, a linguagem passa a funcionar como ferramenta de exclusão social, ora, quem não conseguiu pagar um curso de inglês, ou morar algum tempo fora do Brasil, não vai entender a mensagem.


Na verdade, como é dito por Nelson Ascher (2003), as línguas européias/ocidentais se influenciaram mutuamente, tivemos influências nas palavras, sons e gramática, tivemos convenções e tradições literárias que se influenciaram, o que permite que muito do entendimento cultural seja compartilhado. Contudo, ao traduzir uma obra, é provável que vamos deparar com alguns “problemas” culturais na hora de traduzir aquela palavra/expressão/vivência para outra cultura.


Sendo assim, nenhuma cultura é amplamente autossuficiente e completa. Por isto o trabalho de um tradutor é tão pertinente. Se não houvesse tradução, o texto, assim como a literatura, ficaria restrita ao povo de onde ela foi escrita, não alcançaria pessoas o suficiente fora deste local. Já pensou a perda que a literatura mundial sofreria com isso?


Quebrar esta esfera do local é importante se entendemos que uma das razões pelas quais um escritor vai escrever é para cumprir a função de comunicar e afetar o maior número de pessoas com sua obra. Muito dessa expansão apenas é possível graças à tradução, pois é com este processo que o texto vai atingir cada vez mais o maior número de leitores. O que podemos concluir disto é que, por meio da tradução, a literatura, e demais textos, passam a ser um patrimônio cultural.


Ainda, com as traduções, os escritores e leitores criam uma rede de conhecimento compartilhado, isto é, há uma absorção entre os escritores de conhecimentos e estilos de outra cultura. O que pode agregar muito valor, seja para o escritor, seja para a literatura mundial.


Cabe ressaltar que quanto mais nos distanciamos geográfica e espacialmente, os problemas na hora de traduzir vão ser inúmeros. Assim como qualquer outra disciplina, ferramenta e processo, a tradução vai e pode cometer erros. Contudo, não é cobrado de outras disciplinas essa perfeição, então por que cobrar isso da “Tradução”? Pois, sabemos que não existe tradução impecável, assim como não existe obra que almeja a este fim também. Às vezes o papel da tradução vai ser buscar e criar soluções para auxiliar no entendimento do leitor, e não com a pretensão de ser uma solução ideal, fiel, perfeita, pois isto não existe. Então, fica nítido que é comum o entendimento de que todas as artes são interpretativas, mas só a tradução é cobrada por uma fidelidade.


Desse modo, para Paulo Henrique Britto (2012), a tradução literária é vista como uma atividade de recriação, por parte do tradutor, de uma obra para outra língua. O ponto chave desta definição está na palavra “recriação”, onde temos a ideia de que a criação está inerente ao tradutor quando ele traduzir o texto literário. Assim, ao realizar esta criação, a atividade se torna investigativa também, isto é, muito mais do que apenas a transposição de palavras de um idioma para o outro, mas sim, busca por sentidos, de significados, valores e ideias.


Esta tarefa é difícil, e se potencializa quando temos um texto literário, pois a obra pode ser carregada de símbolos, elementos usados propositalmente pelo autor, irônicas, trocadilhos etc. Além disso, cabe ao tradutor manter o texto final inteligível para o leitor.

Ora, sabemos que numa cultura há compartilhamento de valores e ideias que vão gerar o entendimento coletivo para determinado povo. Isto é, nem sempre uma ironia, por exemplo, fará sentido em outra língua, pois, você deve estar inserido naquela cultura para entender. Há que, assim, buscar outra equivalência? Outra transposição? Correspondência? Um exemplo disto poderia ser a alteração do título “O alquimista” de Paulo Coelho para “A história do jovem rapaz que sai em busca de um tesouro na África” na China. Isto aponta para a ideia de que, para aquela cultura, não faria sentido manter o nome original, seja por não ser atrativo ou seja por não existir um entendimento compartilhado naquela cultura sobre o significado daquela palavra original.


Assim, um texto literário é entendido como um texto cuja sua função transcende a de apenas comunicar, fazendo com que este texto seja um objeto estético em si mesmo. Assim, o escritor, no texto literário, está buscando “recriar” um mundo, e não apenas “dizer sobre” o mundo. Desse modo, há uma preocupação maior com o modo como se diz, não somente com o que é dito em si.


Cabe mencionar um outro ponto de vista no que tange a isto, o da visão extralinguística. Já que esta afirmou que não será a essência do texto que determinará sua natureza. Na verdade, um texto literário é chamado assim pois ocorreu uma classificação do texto como sendo artístico por uma decisão coletiva.


Seja como for este entendimento, sabemos que o tradutor vai encontrar muitos desafios na hora de traduzir este tipo de texto. Há um desafio enorme ao transmitir a mensagem do texto fonte no texto final. Já que é necessário manter o compromisso de comunicação a priori, e além disso, manter o estilo literário do autor do texto fonte. Buscando, assim, produzir no leitor, efeitos semelhantes ao texto fonte.


Com isso, é evidenciado a ideia de recriação do texto por parte do tradutor. E para que isso ocorra da melhor maneira, pode ser um caminho comum que o tradutor seja um leitor especializado, isto é, com formação acadêmica específica para não eliminar elementos ricos do texto fonte.


Finalmente, um ponto abordado no texto de Lana (2014) que gostaria de ressaltar é que a tradução possibilitou um contato, uma interação entre as culturas. Mas, mesmo que exista este entendimento, a tradução ainda foi e é algo subestimado, vista como inferior – tradutor, traídos. É importante entender que a tradução é algo complexo e tem seu valor. O tradutor tem um papel fundamentalmente importante ao recriar uma obra, conforme dito por Milton Hatoum: “A única saída é torcer e confiar no seu tradutor”.


Já que, como vimos, a tradução é cultural e tem uma importância ímpar para a construção do mundo que conhecemos. Faça um exercício de reflexão e pense na quantidade de informações traduzidas que você consome diariamente. O quão diferente sua vida seria se os tradutores internalizassem esse entendimento de “traduzir é trair”.


Ainda, podemos entender a importância cultural da tradução ao questionarmos o que é traduzido para nós – e o que não é traduzido. Pois, ao traduzir um texto para uma nova cultura, garantimos que este texto aumente seu alcance. Vamos pensar nos livros mais traduzidos da história, que são:


  1. A Bíblia

  2. Harry Potter e a Pedra Filosofal

  3. As aventuras de Pinóquio

  4. O pequeno príncipe

  5. Alice no País das Maravilhas


Estes livros estão profundamente enraizados nas nossas culturas ocidentais, presentes no nosso imaginário coletivo. Estes livros exercem uma influência direta na nossa forma de pensar, agir e viver em sociedade. Evidenciando o caráter cultural da tradução, assim levantando a ideia de que ela pode funcionar como ferramenta de poder ideológico, político, cultural, econômico e social.


Sugestão de vídeo e filme:

Filme: O Tradutor (2019)

Referências:


ARAÚJO, Lana. Os Percalços da Tradução Literária. Rio de Janeiro: CIFEFIL, 2014.


ASCHER, Nelson. Poesia é o que se ganha na tradução. São Paulo, 2003.


BRITTO, Paulo Henriques. A tradução literária. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2012.


DOUGLAS, Mary. Antropologia e simbolismo. Bolonha, Editora II Mulino, 1985.


GIDDENS, Anthony. A constituição da sociedade. São Paulo, Editora Martins Fontes, 1989.

GROSSMAN, Edith. Why Translation Matters. Yale University Press, 2010.


MAGRITTE, René. Ceci n'est pas une pipe. 1929. Disponível em: <https://unframed.lacma.org/2013/09/09/magritte-and-the-trading-of-images>. Acesso em: 08/12/2020.


NOGUEIRA, Marcos. Uma literatura difícil de traduzir. 2011. Disponível em: < https://istoe.com.br/139022_UMA+LITERATURA+DIFICIL+DE+TRADUZIR/>. Acesso em: 08/12/2020.



 
 
 

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