Porque alguns médicos continuam defendendo o tratamento precoce contra a COVID-19?
- Instituto Tucan

- 18 de mar. de 2021
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Por Marco Túlio S. Morais
Dentre as perspectivas existentes entre o que é Política, uma delas envolve a ideia de agir no meio público. Esta ideia pode ser interpretada desde um nível que vou chamar aqui de “macro”, que é a política realizada pelas instituições estatais e governamentais, assim como pode ser entendida em um nível micro. O nível “micro” seria, nesse caso, o nível em que um indivíduo toma posicionamentos rotineiros em seu trabalho, ou em seu dia a dia em geral.
Borges (2008, p. 67) explica que “o termo política significa tudo que diz respeito às relações sociais, à realidade social global, enfim à sociedade em geral. Nesse sentido, tudo que ultrapasse o âmbito estritamente pessoal ou uma das relações íntimas e incida sobre qualquer realidade social é político.” Isto é, toda tomada de decisão individual que envolva de alguma maneira o meio social é político.
Nessa perspectiva, toda ação humana que se desdobre para além da própria individualidade ou intimidade do ser humano é uma ação política. Isso implica também que o ser social é também um ser político.
Ainda segundo Borges (2008), a conceituação de política segundo Durkheim envolve a sua concepção de Estado. E o que é o Estado para Durkheim? O Estado é “a instituição da disciplina moral que vai orientar a conduta do homem [...]” (BORGES, 2008, p. 68).
Assim, a função do Estado, nesse caso, exerceria o papel político de influenciar as ações dos indivíduos, no sentido de definir quais ações são corretas ou não, assim como o de moldar as relações de força e de poder na sociedade. Resumindo, a política segundo Durkheim é a “relação entre governantes e governados”.
Bom, e o que estas discussões têm a ver com o tema do post? Elas nos mostram que política é algo realizado pelos indivíduos, ainda que ele não seja um político “profissional”, no sentido de ser governante do Estado. Nessa concepção, fazemos política rotineiramente, e isso faz parte do que é ser um indivíduo sociável. Assim, uma tomada de decisão - independente do posicionamento - que envolva o outro é um ato político.
Pensando nisso, porque alguns médicos continuam defendendo o tratamento precoce contra a COVID-19, mesmo não havendo embasamento científico para tal posicionamento?
Há uma politização muito grande por parte do Estado brasileiro em relação ao tema: como lidar com a COVID-19? Como resposta o governo coloca como correto para a população: utilize do tratamento precoce. E é nesse momento em que o conceito de política ganha sentido prático para o texto. É o Estado dizendo à população sobre o que é certo na luta contra o COVID e influenciando pessoas a fazerem e defenderem isso.
O resultado disso é uma quantidade de pessoas que defendem e que cedem à ideia de tratamento precoce, um entendimento adquirido inteiramente por meio de atos políticos de representantes do Estado brasileiro, com zero respaldo científico.
O que torna ainda mais complexo de se entender nesse cenário é que profissionais da área da medicina também têm sido influenciados por essa política de defesa ao tratamento precoce, e têm receitado e aprovado remédios como ivermectina e cloroquina para os pacientes. Inclusive, defensores desse posicionamento utilizam e se justificam mostrando exatamente esses casos de médicos (os quais, teoricamente, estariam falando com o respaldo da medicina), que afirmam acreditar na eficácia desses remédios contra a COVID-19.
Mas, o que se pode concluir dessa discussão? O tratamento precoce não possui nenhum respaldo de ordem científica. Isto é, remédios como os citados acima não funcionam no combate à COVID-19. Inclusive, há a suspeita de que esses remédios, se usados incorretamente do modo como tem sido, podem colocar a saúde de seus usuários em risco.
Portanto, a receita feita por médicos, como seres políticos que são, de remédios ineficazes contra a COVID-19 não é uma prescrição médica, e sim um ato político.
Referências
BORGES, P. P. O homem como ser político: ensaio. Multitemas, Campo Grande-MS, n. 36, p. 63-90, jun. 2008.
Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS). Folha informativa COVID-19. Escritório da OPAS e da OMS no Brasil. Publicado em: 12 de fev., 2021. Disponível em: https://www.paho.org/pt/covid19#cloroquina-hidroxicloroquina Acesso em: 17 de mar., 2021.



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