Carnaval também é cultura
- Instituto Tucan

- 16 de fev. de 2021
- 4 min de leitura

Por Marco Túlio
Por vezes, no dia a dia, entende-se o significado de “cultura” como sendo todo e qualquer conhecimento culto. Ou seja, cultura é tudo aquilo que pertence a um conhecimento refinado, pertencente a somente privilegiados e pessoas com um alto grau de escolaridade ou até mesmo riqueza. Ter cultura, nestes termos, seria algo restrito a somente pessoas gabaritadas, que possuem uma posição de poder dentro da sociedade.
Na verdade, este tipo de conceituação do que é cultura só nos leva a repetir uma prática de elitização do conhecimento. Entender a cultura do modo como explicado acima nos leva a entender que a parcela da população pouco instruída e com poucos recursos não possui cultura. Isto é, se cultura se resume a ser culto, dotado de um certo tipo de “nobreza” ou um alto grau de “conhecimento refinado”, isso quer dizer que o favelado da esquina não possui cultura.
Tudo é fruto de uma hierarquização social, ou seja, considera-se alguns grupos melhores do que outros, gerando uma ideia de práticas, atos e ideias que são corretos ou incorretos dentro de uma sociedade. No final das contas, é justamente essa hierarquização que exclui os menos instruídos ou menos afortunados, que nestes termos são “aculturados”.
Na verdade, ter cultura muitas vezes envolve o compartilhamento de uma quantidade de ideias, práticas, rituais, etc., que foram estabelecidas e repetidas ao longo da história. Elas variam (e muito) em relação à sua forma ou ao conteúdo. Partindo deste conceito, o campo de estudo da antropologia, por exemplo, por meio da observação de culturas primitivas, foi percebendo que um “alto nível de educação” não tem relação com possuir ou não cultura. Fazer essa relação é, na verdade, uma maneira de discriminar aqueles que possuem condições sociais diferentes e que possuem expressões culturais não ligadas a grupos socialmente predominantes.
Esse é o lugar onde, em certos momentos, o Carnaval é colocado no Brasil. Um evento à parte do que se entende como sendo a cultura brasileira, ou pelo menos à parte do que deveria ser a cultura brasileira nessa visão. Essa perspectiva é, na verdade, parte de um elite, que enxerga nas expressões culturais populares algo negativo, que devem ser negadas ou trocadas pelo refinamento cultural branco e elitista.
Pode-se entender que essa visão tem suas raízes em uma quantidade de características das classes sociais predominantes aqui no Brasil. Seja por possuir uma mente colonizada, isto é, pautada por aspectos culturais predominantemente modernos e ocidentalizados, advindas de um norte global* modernizado, ou então por sua composição massivamente branca racista, que constroi toda uma estrutura social racista, que exclui os negros e expressões culturais que os envolvem. Mas, de todo modo, essa discussão é algo que merece maior carinho (talvez num próximo post).
E, não, não quero dizer que Carnaval é só coisa de negro. O ponto a ser entendido aqui é que carnaval é uma expressão cultural brasileira popular, cujo povo é composto por uma parcela massivamente negra. Nesse sentido, é totalmente viável entender que o evento carnavalesco está intimamente ligado à figura do negro africano e suas expressões culturais aqui no Brasil. Mas, para entendermos isso melhor, precisamos olhar para a história do carnaval em nosso país.
Oficialmente falando, o Carnaval surge em terras brasileiras a partir da chegada dos portugueses e da Igreja Católica neste território, data a qual faz parte do calendário cristão, cuja comemoração foi agregada pela religião católica no ano de 590 d.C., e que foi trazida para o Brasil com o catolicismo.
O que muitas vezes é deixado de lado dentro da história oficial é que num primeiro momento os negros escravos, vindos da África, eram excluídos das práticas carnavalescas dos europeus. Com o passar do tempo, isso foi se alterando à medida que os africanos passaram a ter contato com a Igreja Católica, mediante a catequização e o envolvimento destes escravos com tal religião europeia.
Assim, os escravos passaram a agregar uma quantidade de aspectos culturais sobre o Carnaval no Brasil, o transformando permanentemente em território brasileiro. Há uma quantidade de rituais, cânticos e ritmos musicais africanos que foram agregados à comemoração do Carnaval e que compõem, por exemplo, a base do que chamamos de samba atualmente. Isto é, tudo isso nos permite entender como o Carnaval é uma festa popular, e como ela adquiriu originalidade no Brasil, o tornando uma das festas mais famosas no mundo.
“As escolas de samba, que criaram o gênero chamado samba-de-enredo, cantaram, e ainda cantam, a saga do negro no Brasil e a epopeia da escravatura.” - Costa, 2009.
Posto isto, o Carnaval é, sim, um evento cultural, que constitui a história e que remete a formação de nosso país. E, mais, o Carnaval foi influenciado e é expressão, no sentido de ser contestador, de uma estrutura social racista, em que se tem o negro em segundo plano. E suspeita-se que a prática de inferiorização ou desconsideração do Carnaval como sendo parte da cultura brasileira, tende a ser um reflexo da marginalização do negro e suas expressões e influências culturais em nossa sociedade.
* Por norte global entende-se a região que compreende os Estados Unidos e Canadá, assim como o continente Europeu.
Referências
COSTA, Haroldo. O rio negro no Carnaval. Textos escolhidos de cultura e arte populares, Rio de Janeiro, v.6, n.1, p. 197-210, 2009. Disponível em: http://www.tecap.uerj.br/pdf/v6/haroldo_costa.pdf Acesso em: 15 fev., 2021.
FUNDAÇÃO NACIONAL DE ARTES (FUNARTE). A origem do Carnaval e sua chegada ao Brasil. Ministério da Cultura, n.3, ano 4, mar./2014. Disponível em: http://www.funarte.gov.br/boletim/informartemarco2014.pdf.pdf Acesso em: 15 fev., 2021.
MINTZ, Sidney W. Cultura: uma visão antropológica. Revista Tempo, n. 28, 2009.



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